dicas de escrita
[Writing Wednesday #1] Personagens Femininas: como entendidas por uma moça de 21 anos (3/3)
Atingimos o último capitulo da crónica! Roll the film, steve! (voz de documentário: E agora, Agência e Motivação.)
Agência e Autodeterminação!
(Characters should possess a sense of agency and ego, which is to say that they should be making decisions "themselves" based on their own desires and ideas. [x])
Pegando outra vez na ideia de “porque o autor quer”, lembrem-se: agência! Razões de ser! Razões para tudo! Razões!!!
Uma personagem tem agência. Se a vossa personagem não tem agência, não é uma personagem completa (okay, salvo excepções de enredo)! Acho que, do meu ponto de vista que pode estar errado ou não, podemos considerar vários níveis de agência. Mas, essencialmente, uma personagem com um menor nível de agência, especialmente central, vai “evoluir” durante a narrativa – pode começar como alguém cuja motivação para viver foi sugada por algo/alguém de modo a que não faz nada por ela mesma, faz o que os outros querem porque os outros querem, mas que ao longo da narrativa evolui e eventos levam a que recupere a sua agência.
Porque é que a agência é importante?
Porque está intimamente ligada à forma como a personagem age e reage. Exemplo: Porque é que personagem X é uma prostituta? Porque ela quis? Porque está numa missão ultra-secreta? Porque o autor quis uma prostituta na narrativa? Porque alguém a está a explorar? Uma personagem com agência possivelmente situa-se nas duas primeiras cenas, já “porque o autor quis” é uma clara falta de agência. Resumindo este ponto, deem uma razão para a personagem ter capacidade x ou emprego y, deixem que ela actue de livre vontade, que exista segundo os seus princípios, não os do autor. O melhor exemplo de personagens sem agência são aquelas que não existem fora da plotline do romance com a personagem principal. São também o tipo de personagem mais odiado.
Outra manifestação de agência e autodeterminação: objectivos. Uma personagem sem objectivos é uma carapaça vazia.
A agência é importante ainda por interagir e ser moldada por experiências passadas da personagem. Fazer com que a personagem tenha um passado trágico só para criar empatia é um big no. Façam o passado contar, pensem como é que a experiência vai moldar a personagem, não se aproveitem do estereótipo da fragilidade da mulher, isso é escrita preguiçosa e downright bullshit. Por outro lado, não desliguem as duas – não façam com que a vossa personagem tenha sido violada (sexualmente, fisicamente, emocionalmente, etc.) e depois aja como se nunca tivesse passado por tal. O passado molda a personagem e a sua agência, ou lack of thereof.
Motivação
Não façam com que a única motivação da personagem feminina seja agradar às (e/ou procurar a aprovação das) personagens que a rodeiam, especialmente as masculinas. Do not. Isto perpetua o estereótipo da mulher como submissa e não permite evolução. Com certeza, pode encaixar com um romance histórico, ou com algum tipo de plot marado que tenham em mente. Mas ao subjugar a vossa personagem a outra, sem mais nenhuma motivação, estão a retirar-lhe agência.
Têm motivações e desejos like everyone else! Se Adventure Time tem um cão com motivações legitimas, so can you create a female character with them!
As motivações de uma mulher não se resumem a criar família, arranjar o amor da vida dela, a desempenhar papeis tipicamente femininos na sociedade. Hey, a vossa personagem pode querer ser DJ, cozinheira da marinha (opá sei lá…), pode querer ser a primeira mulher em Saturno!
Romance
Okay, se por acaso até é o desejo da vossa personagem encontrar o amor da vida dela, hear me out again: A personagem tem de existir fora desta plotline.
Personagens que existem apenas ao nível do romance são maçadoras, não acrescentam nada à história e tenho a certeza que 90% das pessoas as odeiam. Percebi isto quando andava a ver Teen Wolf (shhhh) – o que acontece é que durante uns 7 episódios…ou 9…a antagonista foi apresentada - e entrava em cena - exclusivamente como interesse amoroso de uma das outras personagens. Eu mantive a esperança que se revelasse a minha teoria de que era ela a antagonista, mas muitas pessoas entraram em desespero a dizer que preferiam que ela fosse a vilã a isto. (Eu queria que ela fosse mesmo a vilã, so.)
Mais do que isto, lembrar que violência doméstica, relações abusivas, relações tóxicas, violações, etc., tudo o que há de mau numa relação Homem->Mulher, também há numa relação Mulher->Homem.
Concluindo:
E assim chegamos ao final do primeiro Writing Wednesday! Espero que tenham aprendido algo ou que pelo menos não queiram vir atrás de mim com torchas e ancinhos em punho.
Não tenham, não criem, personagens femininas só para terem a “token female”. Não tenham medo de dizer: okay não tenho uso para esta personagem, o que faço agora?
Não tenham, não criem, personagens femininas só para terem a “token female”. Não tenham medo de dizer: okay não tenho uso para esta personagem, o que faço agora?
if you're a sexist jerk
Artigos e sites consultados, mencionados e link-ados:
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[Writing Wednesday #1] Personagens Femininas: como entendidas por uma moça de 21 anos (2/3)
Bom, deixei-vos ontem com a noticia mais mind-blowing do século (As mulheres são pessoas - a sério, who would've guessed, aye?). Passemos ao próximo ponto!
Provavelmente não, porque as pessoas são multi-dimensionais. As personagens podem sê-lo também! Porque não uma heroína que adora matar bad-guys num vestido fofo, cor-de-rosa, como pompons ou rendinha enquanto ouve Marilyn Mason, a caminho do seu part-time numa qualquer livraria? Reparem – é uma personagem girly, com gosto musical que pode ou não revelar uma faceta mais sombria, que se sustenta, provavelmente apresenta características mais violentas e capacidade física. Não? Este é uma ideia que acho particularmente cómica. Mas deixem-me dizer ainda: para uma personagem feminina ser forte e independente não tem de andar de machado em mão a cortar cabeças. Não. Existem vários métodos e características que podem entrar em jogo: inteligência, estratégia, manipulação, até recursos monetários se estivermos a escrever algo como um Iron Man ou Batman femininos.
Este foi um ponto que encontrei em comum entre diversos artigos que li. A mulher, normalmente, apresenta uma maior atenção ao detalhe do que uma personagem tipicamente masculina. É daquelas características que associamos às mulheres num estalar de dedos. No entanto, nem todas as mulheres são assim – eu conheço umas quantas, tipo eu.
2. Arquétipos de heroína, aparência e personalidade
Não sei porquê, mas quando se fala em personagens femininas fortes/heroínas sai sempre a descrição igual (pensem lá no que para vocês é uma mulher forte e depois leiam isto e isto!). E, sim, quantas personagens que adoro não caem dentro do estereótipo? (resposta, umas 4, maybe) O segundo artigo explica muito bem o meu ponto de vista:
No one ever asks if a male character is “strong”. Nor if he’s “feisty,” or “kick-ass” come to that.
The obvious thing to say here is that this is because he’s assumed to be “strong” by default. Part of the patronising promise of the Strong Female Character is that she’s anomalous.
Oh meu deus. Respiremos antes de comentar por que é que isto acerta em todos os pontos possíveis.
agradecimento especial à Cláudia pelo artigo.
Este tipo de personagem é o pior. Mas o pior. Pressupõe que é uma qualidade única a força da personagem. Porque naturalmente as mulheres não são duras de roer! (Ahahah, alguma vez conheceram uma mulher daqueles signos lixados?) Ao passar a força como a qualidade/característica da personagem está, não só, a criar uma personagem vazia e uni-dimensional como a enraivecer feministas a torto e a direito. Do not. A força deve ser como a visão: uns têm mais que outros, mas todos a possuem (menos os ceguinhos oops sorry). Ou seja, não deve ser uma anomalia que suscite entusiasmo. Porque, de facto, não o é.
Existem outros arquétipos populares, mas o que quero focar é outra coisa: pensem na mulher real que idolatram (nada de “ai a Buffy Summers é o meu ídolo!”).
Existem outros arquétipos populares, mas o que quero focar é outra coisa: pensem na mulher real que idolatram (nada de “ai a Buffy Summers é o meu ídolo!”).
Será que cai estritamente dentro de um molde popular?
Provavelmente não, porque as pessoas são multi-dimensionais. As personagens podem sê-lo também! Porque não uma heroína que adora matar bad-guys num vestido fofo, cor-de-rosa, como pompons ou rendinha enquanto ouve Marilyn Mason, a caminho do seu part-time numa qualquer livraria? Reparem – é uma personagem girly, com gosto musical que pode ou não revelar uma faceta mais sombria, que se sustenta, provavelmente apresenta características mais violentas e capacidade física. Não? Este é uma ideia que acho particularmente cómica. Mas deixem-me dizer ainda: para uma personagem feminina ser forte e independente não tem de andar de machado em mão a cortar cabeças. Não. Existem vários métodos e características que podem entrar em jogo: inteligência, estratégia, manipulação, até recursos monetários se estivermos a escrever algo como um Iron Man ou Batman femininos.
Por outro lado, para uma personagem utilizar a sua inteligência ou instinto manipulador, ou mesmo para andar de machado em punho, não tem de ser uma deusa Afrodite.
Okay? Okay.
De facto, escrever personagens femininas cuja aparência é o seu único traço identificativo e que a leva pela narrativa fora é o passo um para uma personagem não relacionável. Eu sei, a tentação de escrevermos personagens lindas e sexy é tanta, mas temos de nos lembrar que na vida real se calhar uma mulher com medidas perfeitas não é assim tão normal – e a objectificação da mulher é um problema sério que cria obstáculos à escrita. Já agora, o que faz uma personagem sexy, se for isso que querem, é a confiança que tem e como ela owns her body. Não encontro expressão melhor.
Não é bom ter uma personagem cuja aparência é forçada, não se insere no contexto ou cujas acções e aparência não são coerentes entre si. Agora imaginem uma Katniss Everdeen com uma copa DD, pele perfeita e unhas arranjadíssimas. Não se insere no mundo do Districto 12, certo? Certo.
E, mais importante, a beleza não segue um molde inflexível, sabem aquelas pessoas que olhamos e pensamos “woah, ela é bonita de uma forma tão diferente do normal”, isso também pode acontecer nos livros sem haver objetificação ou sexualização da personagem.
Outro ponto importante que se liga aqui é a forma como ela sente, como ela age e como ela reage. Tem de se ter a especial atenção em não construir uma personagem “assim” só porque sim, porque queremos uma personagem X ou Y. A forma como ela inter/age faz sentido, dado o seu passado? Tendo em conta a sua cultura e a sua predisposição para ser a rebelde ou não, faz sentido a personagem agir como agiu? E em relação à religião vigorante no seu país/mundo/cultura? Como é que o seu background influenciou o seu carácter? É importante (tenho a sensação de estar a repetir a palavra importante a lot) lembrar-nos que um antagonista não é feito de defeitos, e um protagonista não é feito de coisas boas, gatinhos e arco-íris.
A aparência (que vai da forma física, por assim dizer, à forma como as personagens se vestem e a forma como se movem) está, geralmente, ligada às suas emoções, capacidades e background. Façam com que este ponto conte, não sejam preguiçosos (i.e. antagonista é sexy e protagonista é fofa [x])!
Sub-tópico: Atenção ao detalhe
Mais uma vez, acho que vai da razão pela qual a personagem o faz. Exemplo: As personagens mais fúteis ou ligadas à moda ou detectives, ou aquela rapariga popular da escola que – na verdade – ninguém gosta muito mas atura na mesma, vão fazer uso desta capacidade. Se calhar a “mera comum rapariga nerd que adora videojogos” não se vai interessar pelo detalhe de uma saia ou saltos altos, no entanto se lhe puserem um jogo à frente é capaz de enumerar 50 factos sobre a sua estrutura, just like that (imaginem que estalei os dedos, okay?). A atenção ao detalhe não é uma característica geral que engloba tudo e que é comum a todo o ser XX.
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Tune in tomorrow for the season finale!
Parte 1: Women Are People Too!
Parte 3: Agência e Motivação!
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Tune in tomorrow for the season finale!
Parte 1: Women Are People Too!
Parte 3: Agência e Motivação!
dicas de escrita
[Writing Wednesday #1] Personagens Femininas: como entendidas por uma moça de 21 anos (1/3)
(É a primeira! E como celebração, este post vai ser postado na integra entre hoje e quinta, porque me entusiasmei um pouco e escrevi 5 páginas sobre o assunto. Oops. Let's go!)
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[Imaginem que entrei de rompante pela janela, partindo o vidro com um pontapé, balançada numa corda presa a um helicóptero e que me levantei com uma cambalhota, abanei a cabeça para ajeitar o meu cabelo e bati com as mãos na vossa mesa e declarei “listen here, mate”]
Estou aqui para falar sobre personagens femininas na literatura. Ou melhor, sobre o processo de criação e escrita destas.
Estava eu, na minha bela ignorância, a fazer scroll internet fora quando pensei “bolas mas como é que é tão difícil, para certas pessoas, escrever uma personagem feminina boa?”
Pensei ainda, “será que também caio no erro de criar personagens femininas vazias ou sexistas?” Era plausível, porque vivi tantos anos numa cultura primariamente machista sem perceber bem o que era uma personalidade feminina de força, normal, relacionável, etc.
Então o que fiz? Encontrei artigos sobre como escrever personagens femininas! (clapclapclap) Devo dizer que enquanto existem artigos muito bons, outros deixaram-me de boca aberta.
É importante referir que, por muito que este post se dirija à criação de personagens femininas, também se destina à criação em geral. Aposto que até consegui criar um Spock 2.0, um Doctor, ou uma experiência genética entre um homem e um hipopótamo da mesma forma.
1.Women are people too
First things first: Mulher é pessoa. Mulher é ser humano. Mulher e Homem não são duas espécies diferentes. (Já dizia o GRRM – “I’ve always considered women to be people”).
Acho que este é o conselho mais básico, mais eficaz e mais central de todos. Antes de mais, a mulher é uma pessoa e deve ser vista como tal. Ao criarmos uma personagem devemos ter em atenção primeiro a condição humana, e só depois o género. (“Female characters should be characters first and female second. The fact that they’re women shouldn’t get in the way of their other traits.”)
Parece básico, right? Nope.
Nas minhas pesquisas encontrei um site com um artigo intitulado “Red Flags for Female Characters Written By Men” (aqui); long story short é um artigo sobre erros que os homens tendem a cometer na escrita de personagens femininas e sugestões sobre como os ultrapassar. So far so good, mas se lerem o primeiro ponto, vêem logo onde quero chegar. O conselho dado pelo autor é pensarmos se gostaríamos de ler sobre ou acharíamos interessante acção ou característica x numa personagem masculina (menciona este ponto ao longo do artigo).
Woah, woah. O quê? Ouvi bem? Li bem? Epá, okay, se calhar pode funcionar para certas pessoas, mas acho que este conselho é o pior que se pode dar.
Uma mulher, por igual que seja a um homem – não é um ser superior ou inferior – tem dinâmicas diferentes. Falando por mim, a subversão ou aniquilação de gender roles é algo que adoro: mulheres a desempenhar papeis tradicionalmente masculinos e homens a apresentar características tipicamente associadas com o sexo feminino – epá, adoro! No entanto, a subversão destes papeis não significa que, por exemplo, numa história em que o elemento principal é uma personagem robin-hoodesca se a personagem principal for uma rapariga, ela se portará de forma igual a um homem. Diferentes mundos e diferentes “tropes” puxam características diferentes de pessoas diferentes (homens e mulheres alike).
Por outro lado, a mulher não é simplesmente um contraponto, ou um lado diferente da moeda que é o homem. Ao usarmos este tipo de raciocínio penso que estamos, antes de mais, a "roubar" agência a uma personagem, porque a limitamos a fazer ou pensar algo que é primariamente aprovado por uma personagem masculina!
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Por hoje é tudo o que temos, tune in next time for more of me trying to make sense!
Parte 3: Agência e Motivação!















